Antigas
Titon abre o jogo e cede primeira entrevista
Denunciado pelo Ministério Público de SC na Operação Fundo do Poço e afastado da presidência da Assembleia Legislativa pelo desembargador José Trindade dos Santos, do Tribunal de Justiça do Estado, desde o dia 26 de fevereiro, o deputado Romildo Titon (PMDB) decidiu pedir licença do Legislativo.Durante todo o ano o deputado se manteve em silêncio. No dia em que se licenciou, concedeu entrevista ao colunista Moacir Pereira. Leia a íntegra logo abaixo:
Moacir Pereira - Por que o senhor decidiu pedir licença da Assembleia Legislativa?
Romildo Titon - Eu decidi pedir licença porque o período de afastamento termina no dia 26 de agosto. Nesta época estaremos em plena campanha. Como decidi não recorrer em nenhuma instância, achei melhor tirar uma licença, cuidar da minha reeleição e de meus compromissos particulares. E também para que não fiquem dizendo aqui na Assembleia que eu estou atrapalhando o andamento dos trabalhos do Legislativo. Jamais fiz isso. Deixei todos a vontade para que tomassem a decisão que achassem melhor. Requeri licença sem remuneração, vou cuidar de minha campanha e esperar o desenrolar dos fatos.
Moacir - Alguns parlamentares, até do PMDB, cogitaram sobre sua renúncia. O senhor não pensou nessa hipótese?
Titon - Comentou-se, mas comigo até agora ninguém falou. Em nenhum momento, colega meu de partido ou de outras bancadas ou o presidente do partido falaram nesse assunto. A questão de renúncia nunca foi por mim cogitada. Não sou acusado, nada devo e vou me defender. A licença é um gesto que faço para que a Casa possa andar e o plenário possa decidir com liberdade. Além disso, nosso partido está fazendo um rodízio para assegurar a permanência dos deputados Dirce e Andrino.
Moacir - A sua expectativa é de que reduza o clima de tensão política?
Titon - Saio para cuidar da minha campanha. Não estou pressionado por ninguém. Houve um exagero muito grande por alguns setores da imprensa. Eu sei que há pessoas maldosas que falam por trás e não querem se identificar. Mas comigo ninguém falou. Anunciaram até que a bancada formará uma comissão, mas nunca ninguém conversou comigo. Quero evitar estas conversas, fofocas e mal entendidos. A Assembleia tomará agora o rumo que deve ser tomado.
Moacir - Como o senhor reagiu à iniciativa da deputada Angela Albino (PCdoB) de enquadrá-lo na Comissão de Ética da Assembleia?
Titon - Não tenho nenhuma preocupação. Não sou réu em ação nenhuma. Não sou nem denunciado, pois o processo está suspenso por uma decisão de Brasília, que nem foi iniciativa minha. É de recurso de outro, assunto que gostaria de falar mais tarde. Levar para a Comissão de Ética por que? Se levar, não tenho nenhum receio. Também não vejo nenhum motivo para isso.
Moacir - Licenciado, o senhor espera retornar a Assembleia dia 26 de agosto, quando termina o prazo do afastamento determinado pela Justiça?
Titon - É difícil prever o cenário porque o processo está suspenso pelo STJ. Ninguém pode fazer mais nada. Não sei quando eles vão julgar. E para mim não faz nenhuma diferença. Pode ser pela Justiça Federal ou pela Justiça Estadual. A minha verdade é uma só. Não tenho receio algum. Não trabalho por isso. Dizem que isto é ação minha. Até hoje, a única reação que tive foi o agravo regimental. Meu advogado estava pronto para entrar com recurso em Brasília e mandei suspender. Não tenho interesse em voltar agora para a presidência. Deixe que a decisão aconteça em Brasília. Eu só tenho uma verdade e meu discurso é um só. Posso ser investigado pelo Ministério Público Estadual ou pelo Ministério Público Federal, que não faz diferença nenhuma. Não tenho o que esconder.
"Um ano e pouco grampeado e só pegaram isso aí. Se eu fosse um malando, um bandido, como tentam me imputar, tinham pegado muito mais coisa", disse Titon.
"Um ano e pouco grampeado e só pegaram isso aí. Se eu fosse um malando, um bandido, como tentam me imputar, tinham pegado muito mais coisa", disse Titon. Foto: Alvarélio Kurossu
Moacir - A acusação do Ministério Público na denúncia é o suposto recebimento de R$ 20 mil de um empresário.
Titon - Isso ficou muito claro no meu depoimento e não precisou ninguém me perguntar. Não existe propina de R$ 20 mil. Eu fiz ao empresário pedido de contribuição de campanha para um candidato na eleição municipal. É uma situação absolutamente normal. Todo mundo pede colaboração de campanha. Vai dizer que existe um político que não solicita recursos para campanha? E nem era para mim. Era uma campanha municipal. Solicitei que dessem ajuda para um candidato alguns dias antes da eleição. Somente isto. Não escondo nada. E a contribuição nada tinha a ver com o que eles estavam investigando. Eu fiz o que todos fazem: pedir recursos para campanha. Meu erro foi pedir para uma pessoa que estava sendo investigada. Foi meu único erro.
Moacir - Seu advogado sustenta que não há prova contra o senhor. Por quê?
Titon - Porque provas materiais não existem. Me acusaram de formação de quadrilha. Não existe uma única ligação minha falando com prefeitos, com algum membro de comissão de licitação ou funcionário de prefeitura. Não tenho nenhuma relação com comissão de licitação. Nunca me envolvi com isso. Além disso, como é que eu vou interferir aqui de Florianópolis numa licitação municipal! Como, de que forma, se há um aparato nas prefeituras. Não há como induzir ou direcionar uma licitação. Nada, nada, nada. O problema é que espero o momento para me defender. Até agora não tive esta oportunidade. Para mim, o recebimento da denúncia é muito interessante.
Moacir - Por quê?
Titon - É preciso que a denúncia seja aceita. Só assim vou poder me defender. Será fundamental para mim. Vou poder apresentar as provas, dar todas as informações. É a única forma de provar o que digo.
Moacir - O recebimento da denúncia pelo Tribunal de Justiça não o preocupa?
Titon - Não! Ao contrário, eu quero que o Tribunal receba a denúncia.
Moacir - Sério mesmo?
Titon - Sério! É a única forma de provar minha inocência, derrubar a marca que tentam me imputar. Eu não tenho outra saída. Tenho absoluta certeza que tendo oportunidade de falar e de apresentar meus argumentos, oferecer testemunhas, exigir uma gravação de que interferir numa licitação, tenho certeza que tudo se esclarecerá. Não tive esta oportunidade em nenhum momento até agora.
Moacir - Por que senhor optou pelo silêncio? Por que não concedeu e se defendeu pela imprensa?
Titon - Por causa do momento. Achei que era hora do silêncio.
Moacir - Não foi um erro político?
Titon - Pode ter sido. Verifiquei que certos setores da imprensa jogam da forma que melhor entendem. O poder do Ministério Público em fazer divulgação é muito maior do que o meu. Há momento de falar e momento de calar. Como vou falar para a imprensa se no Judiciário não tive oportunidade de me manifestar, apresentando meus argumentos, minhas provas e minhas testemunhas. Preferi silenciar.
Moacir - Além da ação do Ministério Público, o senhor suspeita de alguma ação política?
Titon - Eu não estou em condições de falar, ainda. Não vou acusar ninguém porque toda acusação precisa de prova. Só eu sei a injustiça que estão fazendo comigo, jogando meu nome na lama, de uma coisa que não devo. Eu sei de onde está partindo, mas não é hora de falar.
Moacir - O senhor identifica ação política neste processo?
Titon - Há dois momentos. Há o momento da investigação, onde caí, porque não era investigado. As pessoas investigadas estavam grampeadas há oito meses. Eu fiz uma ligação e fiquei. Eu não era investigado. Caí na rede. Meu erro foi pedir ajuda de campanha para quem estava sendo investigado, fato que eu não sabia. Mas há um segundo momento, dali para a frente, em que houve interferência política. Mas agora eu prefiro não falar.
Moacir - Vai chegar o momento de esclarecer?
Titon - Sem dúvida, vai chegar esta momento de esclarecer tudo. Vou aguardar pacientemente.
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"Sou um pouco nervoso. Sou um pouco estourado e resisti a tudo com muita naturalidade. No começo sofri muito e depois me segurei. Não tomei remédio". Foto: Alvarélio Kurossu
Moacir - O senhor sofre com tudo isto?
Titon - Não desejo para ninguém o que estou passando, o que minha família está sofrendo. Sou uma pessoa que tem uma vida construída com muita simplicidade, com muita humildade. Não tenho abundância na minha casa e minha família foi criada de uma maneira muito simples, modesta. Nunca fui apegado a dinheiro, a capital. Sempre me dediquei a fazer o bem para as pessoas, sempre atendi todos na área de saúde. Quem convive comigo sabe que vivo fazendo o bem para as pessoas mais necessitadas. É minha identificação, é meu povo, é a formação que tenho. Você constrói uma vida com 35 anos de mandato, pautado na seriedade, na ética e se vê envolvido num negócio desses e ser tratado com eu fui tratado, é triste. Fui um dos poucos que teve todas as gravações divulgadas nos meios de comunicação. Em tudo houve um preparo. Para pedir meu afastamento, divulgaram tudo antes no noticiário, de uma forma muito tendenciosa. Só saíram minhas gravações. As outras não interessaram. Depois, houve momentos mais delicados. Eu fui muito injustiçado. Eu fui execrado em praça pública politicamente, sem ter o direito de me defender. Veja que nem houve recebimento da denúncia e já fui condenado. Só se fixaram em mim porque estava na presidência da Assembleia ou porque estava fazendo sombra para alguém. Lá na frente vou ter a oportunidade de falar tudo. Eu sofro, a família sofre. Sou inocente. Se fosse um bandido saberia lidar com isso. Nunca tive nada na minha vida. Nada! Minha vida pública foi uma vida construída abertamente. Todos me conhecem, sabem meus passos, de onde vim, o que tenho. Você pauta uma vida com muita simplicidade, seriedade e vê jogada politicamente, tem que ficar muito magoado. Perde até o ânimo pela política, como sempre tive. Mas quero mostrar para a sociedade as provas, as testemunhas e os argumentos.
Moacir - A família sofreu mais porque todos participam da vida pública?
Titon - Todos participam, a esposa, os filhos. Era um conjunto de pessoas. Todo mundo ia para a rua. Não sou de comprar votos, contratando cabos eleitorais. Minhas campanhas são de casa em casa, muito a vontade, caminhando na rua, apertando a mão, entrando de casa em casa. É meu estilo de campanha. Passei todas as eleições em todas as casas. E voltei depois para agradecer. Faço isso desde a primeira eleição.
Moacir - O senhor não teve vontade de explodir e contar tudo que está por trás deste processo?
Titon - Tive muita vontade em muitos momentos de jogar para a fora, ir para a tribuna e falar a realidade que precisa ser dita, contestando as mentiras, inverdades e injúrias colocadas. Fui aconselhado e preferi o silêncio. Tudo o que você fala pode prejudicar na frente ou vai bater em alguém. Sou um homem com discurso muito forte, não tenho papas na língua e isso as vezes pode custar caro.
Moacir - O senhor não acha que foi um erro político o discurso da tribuna contra o Procurador Geral Lio Marin?
Titon - Não. Acho que não menti e só falei a verdade. Não me arrependo de nada.
Moacir - E a nomeação dos quatro assessores, apontada pelo Ministério Público como motivo para pedir o afastamento, não foi equívoco?
Titon - Também não me arrependo. Os funcionários estão comigo desde o início. A Alessandra, nomeada chefe de gabinete, trabalha comigo há mais de 20 anos. Não teria pessoa mais preparada para o cargo. Os outros funcionários apenas foram convocados para dar um depoimento. Eu procurei não trazer ninguém de fora para os cargos comissionados. Todas estas pessoas não tem envolvimento em nada. Por que vou puni-las? Só porque trabalham para mim.
Moacir - A alegação é de que poderiam obstruir as investigações.
Titon - Seria oportuno que a imprensa divulgasse a resposta do presidente Joares Ponticelli ao Ministério Público e a Justiça. Não há nada que me envolva, nem projeto, nem qualquer iniciativa ou indicação. Não acharam nada. Porque não tem nada.
Moacir - No início o senhor teve total solidariedade do PMDB. Agora, não está isolado?
Titon - Não! Continuo tendo a solidariedade de todo mundo: do Eduardo (Pinho Moreira), do Luiz Henrique (da Silveira), amigos e conselheiros. Quem está criando isto é a imprensa.
Moacir - O senhor acha que a bancada está inteiramente solidária?
Titon - A não ser alguns que tem interesse no meu cargo, todos estão solidários. Sempre tiveram. Há mais de 20 anos tenho um intenso trabalho de saúde, assistência aos doentes e carentes, prestado aqui. E meus colegas sabem disso muito bem.
Moacir - Que lições o senhor tira deste processo?
Titon - (refletindo) Isto faz parte da vida de qualquer político. Quem está na vida pública fica exposto. Tive a infelicidade de estar grampeado por mais de um ano. Me considero um cara feliz. Um ano e pouco grampeado e só pegaram isso aí. Se eu fosse um malando, um bandido, como tentam me imputar, tinham pegado muito mais coisa. Estou tendo a paciência, a tranquilidade de esperar o momento de explicar vírgula por vírgula do que escreveram.
Moacir - O tempo da Justiça é diferente do tempo da política. O senhor se acha prejudicado por isso?
Titon - É claro que prejudica. Eu faço política diferente. Na minha região não tem grandes jornais, nem televisão. Não tem programa de rádio nas eleições. É política diferente da cidade grande. Fui atingido, mas a grande maioria acredita na minha inocência. Porque todos me conhecem. Como lição de vida que levo é "cuidar do que fala no telefone". O telefone é grande inimigo das pessoas. Uma palavra pode ser mal analisada.
Moacir - Se o Tribunal de Justiça receber a denúncia, o que o senhor fará?
Titon - É importante para mim. Vou poder me defender. Se o Tribunal não receber a denúncia, estarei tranquilo, mas a marca ficou. Será a única oportunidade de, juridicamente, esclarecer os fatos.
Moacir - O afastamento termina no dia 26 de agosto?
Titon - Eu não pretendo voltar antes da eleição. Vou tirar uma licença na forma regimental, já comuniquei ao presidente Joares que vou ficar até as eleições.
Moacir - Qual o fato mais negativo de todo o processo?
Titon - O desconforto da imagem política, da forma como me acusaram e me condenaram politicamente, sem direito a defesa.
Moacir - O senhor consegue extrair algum fato positivo?
Titon - O fato de ter aguentado tudo isso com tranquilidade. Sou um pouco nervoso. Sou um pouco estourado e resisti a tudo com muita naturalidade. No começo sofri muito e depois me segurei. Não tomei remédio. Fiquei abalado psicologicamente porque a família fica no desconforto. Eu me admiro ter atravessado tudo isso sem ter estourado. Admiro a condição de suportar tudo isso com a cabeça erguida. Eu não estava preparado para isso.
Moacir - Quais foram os mais solidários?
Titon - O presidente Eduardo Pinho Moreira, o senador Luiz Henrique da Silveira e os amigos aqui da Casa. E, sobretudo, a família.
Moacir- E as decepções?
Titon - Foram as notas maldosas da imprensa. Alguns da imprensa ouviram pessoas que falaram inverdades e divulgaram. Fiquei muito chateado. Tentaram jogar a bancada do PMDB contra mim.
Moacir - O senhor defende a reeleição do governador Colombo?
Titon - Estou acompanhando o PMDB, Eduardo Pinho Moreira e Luiz Henrique.
Moacir- O senhor defende o PP na chapa de Colombo?
Titon - O partido vai decidir. Não tenho opinião formada. Sou parceiro do partido.
Moacir - Quem é seu candidato a presidência da República?
Titon - Vou esperar o partido tomar uma decisão.
Moacir- O PMDB apoia Dilma?
Titon - Ainda não. Tem muita água para rolar, ainda.
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